O crescimento de Mato Grosso do Sul está mudando o mapa econômico do Estado, mas também começa a impor desafios que chegam diretamente à vida das pessoas: aluguel mais caro nas cidades em expansão, necessidade de qualificação para ocupar novos empregos, pressão sobre hospitais, escolas, ruas e rodovias. Para o governador Eduardo Riedel (Progressistas), candidato à reeleição, o próximo passo é fazer com que a expansão econômica seja acompanhada por infraestrutura e serviços públicos capazes de absorver essa nova realidade.
Em entrevista aos jornalistas Bruno Callegari, Kelly Martins e Ginez César, da Rádio Massa FM, Riedel defendeu a estratégia de atração de investimentos adotada pelo Estado e afirmou que pretende aprofundar políticas de qualificação profissional, ensino em tempo integral, habitação, infraestrutura logística e regionalização da saúde.
Um dos principais argumentos apresentados pelo governador foi o desempenho da economia estadual. O crescimento real do PIB de Mato Grosso do Sul chegou a 13,4% em 2023, mais de quatro vezes os 3,2% registrados pelo país naquele ano. O resultado colocou o Estado com a segunda maior expansão entre as unidades da Federação.
Incentivos para atrair empresas e movimentar a economia
Questionado sobre as críticas dos adversários ao volume de renúncias fiscais, Riedel afirmou que os incentivos fazem parte de uma política destinada a trazer empreendimentos que, sem o benefício, poderiam se instalar em outros estados.
A lógica apresentada pelo governador é que uma empresa atraída pelo incentivo não gera apenas arrecadação direta, mas empregos, renda e demanda por fornecedores e serviços locais.
“Se eu tenho a atração de um grande negócio que não está aqui, ele não está gerando emprego, ele não está gerando renda, ele não está recolhendo imposto”, argumentou. Com a instalação do empreendimento, acrescentou, parte dessa arrecadação passa a existir e outras atividades econômicas são estimuladas.
Riedel também associou parte da renúncia à opção do Estado por manter carga tributária menor em determinados produtos e setores, citando o etanol, a carne e itens da cesta básica.
Para o governador, o desafio daqui para frente será adaptar essa política ao novo cenário criado pela reforma tributária.
Milho deixa de ser apenas matéria-prima
A expansão do etanol de milho foi apresentada na entrevista como um exemplo dessa transformação econômica. O avanço das usinas cria um mercado adicional para os produtores, mas também aumenta a disputa pelo grão utilizado na alimentação de suínos e aves.
Riedel reconheceu essa pressão e afirmou que oscilações de preço fazem parte da dinâmica de oferta e procura. Em sua avaliação, porém, o saldo estrutural da industrialização é a possibilidade de manter dentro do próprio Estado uma parcela maior da riqueza gerada pela produção agrícola.
O governador citou ainda o DDG, coproduto obtido na fabricação do etanol e utilizado na alimentação animal, como um dos elementos que conectam as novas usinas às demais cadeias produtivas.
“A gente tem que ter uma visão geral do impacto dessa roda de desenvolvimento”, afirmou. Segundo Riedel, Mato Grosso do Sul se aproxima de uma produção de 15 milhões de toneladas de milho e passou a consumir parcela expressiva desse volume internamente com a expansão das indústrias e das cadeias de proteína animal.
Estradas para acompanhar a produção
O crescimento da produção também levou a entrevista para um problema conhecido de quem depende diariamente das rodovias estaduais: a infraestrutura necessária para retirar essa riqueza das fazendas e levá-la até indústrias e mercados consumidores.
Questionado sobre a aplicação do Fundersul, Riedel afirmou que o fundo passou por mudanças a partir de 2023 e que atualmente os recursos vinculados à produção agropecuária são acompanhados por um comitê com participação de entidades representativas do setor.
Segundo o governador, o Fundersul movimenta aproximadamente R$ 1 bilhão por ano, enquanto o investimento total do Estado em rodovias se aproxima de R$ 2,5 bilhões anuais. Ele afirmou ainda que sua gestão executou mais de mil quilômetros de estradas e que Mato Grosso do Sul se aproxima dos 6 mil quilômetros de rodovias estaduais pavimentadas.
Documentos oficiais do próprio Fundersul confirmam que o fundo é destinado à construção, manutenção, recuperação e melhoria de rodovias estaduais, além de poder financiar obras como pontes, drenagem e intervenções urbanas vinculadas ao sistema viário.
Crescimento muda a rotina das cidades
É em cidades como Três Lagoas que os efeitos dessa expansão aparecem de maneira mais visível.
A chegada de empresas, trabalhadores e investimentos movimenta comércio e serviços, mas também eleva a procura por imóveis e aumenta a pressão sobre saúde, trânsito, educação e infraestrutura.
Riedel reconheceu que o valor dos aluguéis subiu e atribuiu parte desse movimento ao aumento da demanda por moradia. Segundo os números apresentados por ele durante a entrevista, o déficit habitacional estadual gira em torno de 70 mil unidades, mas uma parcela significativa desse cálculo está relacionada ao comprometimento excessivo da renda familiar com aluguel.
A resposta defendida pelo governador combina construção de moradias voltadas às famílias de menor renda com mecanismos como o Bônus Moradia, utilizado para estimular a aquisição de imóveis pelo mercado.
“Os imóveis estão aí, as famílias estão morando, mas estão pagando caro, porque existe uma concorrência por imóveis”, disse.
No caso de Três Lagoas, Riedel citou o Hospital Regional como exemplo de estrutura concebida diante da perspectiva de expansão da região e afirmou que investimentos em rodovias, ferrovia, hidrovia, educação profissional e habitação precisam avançar paralelamente à industrialização.
Emprego novo exige trabalhador preparado
Essa mesma lógica aparece diante da retomada da fábrica de fertilizantes UFN3. Questionado sobre como fazer com que as oportunidades abertas pelo empreendimento cheguem aos trabalhadores da própria região, Riedel apontou a qualificação profissional como principal instrumento do Estado.
Segundo ele, o governo pretende atuar junto às empresas para estimular a contratação local e ampliar a formação de trabalhadores para as funções que serão demandadas pelos novos investimentos.
Riedel afirmou durante a entrevista que Mato Grosso do Sul vive uma das menores taxas de desemprego de sua história. O dado mais recente consolidado para um ano completo mostra taxa de desocupação de 3% em 2025, terceira menor do Brasil, segundo o IBGE.
Nesse cenário, o desafio apontado pelo governador deixa de ser apenas criar vagas. Passa também por aproximar quem procura oportunidade das qualificações exigidas por uma economia cada vez mais industrializada.
Escola integral ligada ao futuro do trabalho
A educação ocupa lugar central nessa estratégia.
Riedel disse que pretende continuar ampliando o ensino em tempo integral e a educação profissional. Atualmente, a modalidade integral está presente nos 79 municípios e alcança 62% das escolas da Rede Estadual de Ensino, percentual confirmado pela Secretaria Estadual de Educação.
O governador ressaltou, porém, que universalizar o acesso não significa transformar obrigatoriamente todas as escolas em unidades integrais. Segundo ele, diferentes realidades familiares e sociais precisam ser consideradas antes de definir até onde a expansão chegará.
A estimativa apresentada durante a entrevista é avançar para algo entre 80% e 85% das escolas, mas Riedel afirmou que a definição ainda será discutida pela Secretaria de Educação.
Outro foco é a formação profissional no ensino médio. Segundo o governador, mais da metade dos estudantes desse ciclo já participa de cursos profissionalizantes.
Para ele, essa mudança começa a produzir efeitos em prazo relativamente curto, porque os jovens deixam a escola todos os anos já com uma formação capaz de facilitar o acesso ao primeiro emprego.
A ampliação do ensino integral nos anos finais do fundamental também foi associada a outra necessidade cotidiana das famílias. Ao absorver parte desses estudantes na rede estadual, explicou Riedel, o Estado permite que os municípios concentrem estrutura e vagas na educação infantil e nas creches.
Santa Casa: mais recursos ligados a resultados
Na saúde, a situação da Santa Casa de Campo Grande encerrou a entrevista.
Riedel classificou o hospital como indispensável para o sistema estadual e destacou que, embora seja uma instituição privada e contratualizada pelo município, recebe recursos estaduais para financiar atendimentos do SUS.
Em janeiro deste ano, por exemplo, o Governo do Estado anunciou repasse de R$ 5 milhões à instituição dentro de um termo aditivo destinado ao custeio de serviços de média e alta complexidade.
O governador defendeu uma mudança no modelo de contratualização para vincular uma parcela maior dos recursos à produtividade e aos resultados apresentados pelo hospital.
Segundo ele, as conversas já ocorrem com a nova administração indicada após a intervenção judicial.
“Nós vamos continuar colocando recurso na Santa Casa”, afirmou. Riedel condicionou, entretanto, eventual ampliação dos valores a maior produtividade e eficiência na prestação dos serviços.
Para o governador, trata-se de preservar uma estrutura considerada estratégica para Mato Grosso do Sul sem abandonar a cobrança por eficiência na aplicação do dinheiro público.
Ao longo da entrevista, Riedel construiu sua defesa da continuidade da gestão justamente sobre essa combinação: crescimento econômico, capacidade de investimento e ampliação das políticas públicas. No projeto apresentado pelo candidato para um eventual segundo mandato, a questão central passa a ser fazer com que uma economia em transformação seja acompanhada, no mesmo ritmo, por moradia, escolas, hospitais, qualificação profissional e infraestrutura capazes de sustentar essa expansão.
Fotos: Saul Schramm
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